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Os Contos de Beedle, o bardo

Os Contos de Beedle, o bardo

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introdução
No final de 2007, a série Harry Potter estava acabada e os fãs do mundo inteiro, agora órfãos da saga, esperavam pelo próximo lançamento de J.K. Rowling. Ninguém sabia o que estava por vir e vários boatos sobre uma possível enciclopédia escrita pela autora sobre o mundo bruxo davam pontas de esperança aos que esperavam que a série pudesse renascer das cinzas.

Rowling, no entanto, acabou decidindo que era justo escrever e transportar para o mundo real um livro de extrema importância no último volume da série, Harry Potter e as Relíquias da Morte.

Inicialmente sete volumes de Os Contos de Beedle, o Bardo, foram escritos e ilustrados a mão pela própria J.K. Rowling. Essas edições seriam dadas de presente para sete pessoas que foram importantes ao longo do processo de criação da série.

A autora percebeu que não era justo deixar os fãs fora desse lançamento, e resolveu ceder a sétima edição para um leilão. Quem arrematou por cerca de £1.950.000,00 (aproximadamente R$7 milhões) o exemplar foi o site Amazon, que chegou a expor a edição. O valor arrecadado foi doado por J.K. Rowling para a instituição The Children’s Voice, criada para amparar crianças na Europa.

A Amazon divulgou breves reviews dos contos, o que deixou os fãs ainda mais curiosos para ler as histórias. Tamanha foi a expectativa dos fãs em relação ao lançamento do livro que as editoras Bloomsbury e Scholastic, juntamente com o Amazon.com, anunciaram o lançamento mundial da obra, fechando o ciclo Harry Potter.

O livro teve seu lançamento mundial em 4 de dezembro de 2008, e traz cinco contos infantis contados às crianças bruxas, que em muito se assemelham aos contos de fadas trouxas, onde as histórias possuem um fundo moral.

As edições possuem ainda comentários e notas, feitos por Dumbledore, 18 meses antes de sua morte.

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O Bruxo e o Caldeirão Saltitante

Assim como em sua série Harry Potter, decorando o topo da primeira página do primeiro conto de fadas, “O Bruxo e o Caldeirão Saltitante” [ou “The Wizard and the Hopping Pot”, em inglês], está um desenho — nesse caso, um caldeirão circular sentado num surpreendentemente bem desenhado pé (com cinco dedos, se você estava se perguntando, e nós sabemos que alguns de vocês estavam). Esse conto começa suficientemente feliz, com um “simpático velho mago”, que conhecemos apenas brevemente, mas que nos lembra tanto nosso querido Dumbledore que temos que dar uma pausa e respirar.

Esse “aclamado homem” usa sua mágica primeiramente para o benefício de seus vizinhos, criando poções e antídotos para eles, no que ele chama seu “caldeirão de cozinhar da sorte”. Cedo demais depois que conhecemos esse homem gentil e generoso, ele morre (depois de viver por uma “idade considerável”) e deixa tudo para seu único filho. Infelizmente, o filho em nada se parece com o pai (e em muito com um Malfoy). Com a morte do pai, ele descobre o caldeirão, e dentro dele (bem misteriosamente) um púnico chinelo e um bilhete de seu pai dizendo, “Afetuosamente esperando, meu filho, que você nunca precise disso”. Como na maioria dos contos de fadas, esse é o momento onde tudo começa a dar errado.

Amargo ao fato de não ter nada mais que um caldeirão em seu nome, e completamente desinteressado por qualquer um que não possa fazer mágica, o filho vira as costas para a cidade, fechando a porta para seus vizinhos. Primeiro vem a velha senhora cuja neta está coberta por verrugas. Quando o filho bate a porta em sua cara, imediatamente ouve um alto rangido na cozinha. O velho caldeirão de seu pai criou um pé e também um sério caso de verrugas. Engraçado, ainda que nojento. O melhor de Rowling. Nenhum dos feitiços dele funciona, e ele não consegue escapar do saltitante e enverrugado caldeirão que o segue — até mesmo ao lado de sua cama. No dia seguinte, o filho abre a porta para um senhor que perdeu seu burrinho. Sem a ajuda dele para carregar suas mercadorias para a cidade, sua família passará fome. O filho (que claramente nunca leu um conto de fadas) fecha a porta para o velho. Certamente, lá vem o enverrugado, e rangente caldeirão pulador, agora emitindo os sons de um burro zurrando e gemidos de fome.

[Alerta de spoiler!] Num estilo realmente de contos de fadas, o filho é importunado por mais visitantes, e lhe custa algumas lágrimas, um pouco de vômito e um cachorro chorando para que o filho finalmente sucumba à sua responsabilidade, e ao verdadeiro legado de seu pai. Renunciando ao seu egoísmo, ele clama por todo o povo de todos os cantos da cidadezinha, para que busquem ele por ajuda. Um por um, ele cura suas enfermidades e assim, esvazia o caldeirão. Por último, aparece o misterioso chinelo — o que se encaixa perfeitamente ao pé do agora silencioso caldeirão — e juntos eles caminham (e pulam) em direção ao alvorecer.

Rowling sempre fez de suas histórias tão engraçadas quanto inteligentes, e “O Bruxo e o Caldeirão Saltitante” não é uma exceção; a imagem de um caldeirão de um só pé, coberto por todas as “verrugosas” doenças da vila, saltitando atrás de um jovem bruxo egoísta é um bom exemplo. Mas a mágica de verdade desse livro e desse conto em particular não está somente em suas viradas de sentença, mas no modo como ela sublinha o “range, range, range” do caldeirão para enfatizar, e como sua letra se torna desorganizada quando a história ganha velocidade, como se ela estivesse se apressando junto ao leitor. Esse toques fazem a história unicamente dela, e esse volume de histórias particularmente especial.

O Poço da Sorte

No topo do que pode vir a ser um de nossos contos de fadas favoritos entre todos, está o desenho de uma brilhante fonte jorrando. Agora que já entramos, estamos há trinta páginas dentro do livro, ficou claro que Rowling gosta de (e é bastante boa em) desenhar estrelas e brilhos. O início e o final de quase todos os contos tem espalhado em si pó élfico (à la Peter Pan — os fãs sabem que os duendes de Rowling, porém, provavelmente não deixariam tão bonito rastro). Essa primeira página da história também traz uma pequena roseira abaixo do texto. É bem amável, e como qualquer um que já tenha tentado desenhar uma rosa sabe, não é tão fácil de se conseguir — um fato que torna menos provável que Rowling o tenha feito para cobrir algum erro (como alguns de nós fariam). É uma maneira linda de começar, e dá a “O Poço da Sorte” [ou “The Fountain of Fair Fortune”, em inglês] muito pelo que caminhar. Talvez seja por isso mesmo que essa história comece tão grandiosamente e com tal perfeitamente suntuosa e misteriosa situação de contos de fadas: um jardim encantado e fechado e que é protegido por “forte magia”. Uma vez por ano, a um “infortunado” é permitida a oportunidade de encontrar seu caminho para o Poço, para banhar-se nas águas, e conseguir “boa sorte para todo o sempre”. Ahhhh, esse é o sonho dos fãs de Harry Potter. Na verdade, esse conto se sobressai ao favoritismo parcialmente porque segue pelo arco da busca pelo qual os fãs se apaixonaram por seus romances — do tipo que ainda desejamos.

Sabendo que essa pode ser a única oportunidade de realmente mudar suas vidas, pessoas (com ou sem poderes) viajam de lugares afastados do reino para tentar ganhar a entrada para o jardim. É aqui que três bruxas se conhecem e dividem seus desencontros. A primeira é Asha, doente de “uma enfermidade que Curandeiro algum pode curar”, que espera que o Poço possa restaurar sua saúde. A segunda é Altheda, roubada e humilhada por um feiticeiro. Ela espera que o Poço alivie seus sentimentos de desamparo e sua pobreza. A terceira bruxa, Amata, foi deixada por seu amado e tem esperanças de que o Poço cure sua “aflição e espera”. Em apenas algumas páginas, Rowling não somente criou um magnífico drama de conto de fadas, mas também um interessante conflito — os leitores, jovens ou velhos, conseguem relacionar-se com pelo menos um dos problemas de Asha, Altheda e Amata (e podemos falar sobre o quão bons são esses nomes?), então como você pode escolher quem deveria ganhar? As bruxas (muito parecidas com os personagens da nossa série favorita) decidem que três cabeças pensam melhor que uma, e juntam seus esforços para chegar ao Poço juntas. À primeira luz, uma rachadura aparece na parede e “Ramos” do jardim passam e se enrolam em torno de Asha, a primeira bruxa. Ela agarra Altheda, que segura Amata. Mas Amata fica presa na armadura de um cavaleiro, e quando os galhos trazem Asha para dentro, as três bruxas junto com o cavaleiro atravessam a parede e chegam ao jardim.

Como apenas um deles poderia banhar-se nas águas do Poço, as duas primeiras bruxas chateiam-se com Amata por inadvertidamente trazer outro competidor. Como ele não possui poder mágico, reconhece-as como bruxas, e como é bem cabível em seu nome, “Sir Luckless”, o cavaleiro anuncia sua intenção de abandonar a busca. Amata prontamente reclama por ele desistir e convida-o a juntar-se ao grupo. É tocante como Rowling continua a abraçar os temas de amizade e camaradagem que prevalecem eu sua série, sem mencionar sua habilidade de construir fortes, inteligentes, personagens femininas. Passamos sete livros assistindo a Harry aprender que tudo bem precisar de ajuda e apoio dos amigos, e essa mesma noção da responsabilidade e do peso de dividir é forte nesse conto.

Em sua jornada ao Poço, o desigual grupo enfrenta três desafios. Estamos num território de contos de fadas familiar aqui, mas é o forte e simples imaginário (uma “monstruosa minhoca branca, inchada e cega”) e a maneira como as personagens trabalham juntas para triunfar sobre a adversidade que faz da história uma leitura tão rica, e puramente Rowling. Primeiro, eles enfrentam a minhoca, que exige “prova de sua dor”. Depois de várias tentativas infrutíferas de atacá-la com mágica e outros meios, as lágrimas de frustração de Asha finalmente satisfazem a minhoca, e os quatro podem avançar. Em seguida, eles vêem um morro íngreme e são questionados a pagar o “fruto de seus trabalhos”. Eles tentam e tentam subir a inclinação, mas passam horas escalando com nenhum resultado. Finalmente, os suados esforços de Altheda para animar seus amigos (especificamente o suor de sua testa) os fazem atravessarem o desafio. Finalmente, eles encontram um córrego em seu caminho, e são pedidos para deixar “o tesouro de seu passado”. Tentativas de flutuar ou pular a travessia falharam, até que Amata pensa em usar sua varinha para retirar de si as lembranças do amante que a abandonou (alô, Penseira!). Um passeio de pedras aparece nas águas, e os quatro podem atravessar até o Poço, onde devem decidir quem se poderá banhar.

[Alerta de spoiler!] Asha cai de exaustão e está perto da morte. Ela sente tal dor que não pode chegar ao Poço, e implora aos seus amigos para não a moverem. Altheda rapidamente substancia uma poderosa poção em uma tentativa de reanimá-la, e a mistura realmente cura sua enfermidade, então Asha não mais precisa das águas do Poço. (Alguns de vocês já vêem para onde isso caminha, mas continuem aí — Rowling tem mais surpresas reservadas). Curando Asha, Altheda percebe que ela tem o poder de curar os outros e um meio de ganhar dinheiro. Ela não mais precisa das águas do poço para resolver sua “falta de poder e pobreza”. A terceira bruxa, Amata, percebe que agora que lavou seu ressentimento pelo amante, ela podia vê-lo pelo que realmente era (“cruel e sem fé”), e ela não mais precisava do Poço. Ela se vira para sir Luckless e oferece a ele a vez no Poço, como um prêmio por sua coragem. O cavaleiro, maravilhado com sua sorte, banha-se no Poço e se arremessa “com sua armadura reluzente” (isso é genial de Rowling — a adição de uma palavra nos dá a hilária imagem do cavaleiro banhando-se com a armadura completa dentro do Poço) aos pés de Amata e implora por “sua mão e seu coração”. Cada bruxa alcança seu sonho de cura, e um cavaleiro infeliz percebe sua bravura, e Amata, a única que tinha fé nele, percebe que encontrou “um homem digno dela”. Um grande “felizes para sempre” para nosso grupo feliz, que sai “braço-a-braço” (é particularmente interessante como é escrito, com os hífens trazendo um visual de braços enlaçados). Mas a história não seria de Rowling sem uma provocação ao final: descobrimos que os quatro amigos vão em frente, sem nunca saberem que as águas do Poço não “carregavam encantamento nenhum”. Melhor. Final. De todos.

Assim como em seus livros, Rowling enfatiza que o verdadeiro poder está dentro, não meramente de uma varinha ou de uma mente, mas do coração. Fé, confiança, amor, dão às suas personagens a força para enfrentar os desafios a sua frente. Ela não prega para seus leitores, mas a mensagem está definitivamente aqui: se você se permitir uma chance de amar e confiar em outros, pode fortalecer o poder que já tem. Uma grande mensagem para crianças (e adultos) aprenderem, e, oh, que pacote adorável.

O Coração Cabeludo do Mago

Cuidado, queridos leitores: Rowling sintoniza os irmãos Grimm em seu terceiro e mais obscuro conto de fadas. Em “O Coração Cabeludo do Mago” [ou “The Warlock’s Hairy Heart”, em inglês], há pouca risada e nenhuma busca, apenas uma jornada aos interiores sombrios da alma de um mago. Não há evidência de pó élfico nessa terrível primeira página, à guisa disso vemos o desenho de um coração coberto por pêlos grosseiros e pingando sangue (novamente, de verdade não é fácil desenhar um coração real, com valvas e tudo o mais, mas Rowling acerta com exatidão — o cabelo nojento e tudo). Abaixo do texto está uma chave antiga com três laços na ponta, jazendo numa piscina de sangue, deixando bastante claro que estamos num conto diferente dos outros. Não diga que não avisamos…

Logo no início conhecemos um belo, talentoso e rico jovem mago, que sente-se envergonhado pela imbecilidade de seus amigos apaixonados (Rowling usa a palavra “cabriolar” aqui – um exemplo perfeito de como ela nunca subestima seus leitores). Tão certo ele está de seu desejo de nunca revelar tal fraqueza, que o jovem bruxo se utiliza das “Artes das Trevas” para se proteger de qualquer possibilidade de se apaixonar. E aqui os fãs devem reconhecer os indícios de um conto educativo — Rowling já explorou tantas morais sobre a insensatez da juventude e os perigos de tal poder nas mãos dos mais moços em sua série.

Inconscientes de que o bruxo fora tão longe para se proteger, sua família ignora suas tentativas de evitar o amor, pensando que a garota certa mudará sua posição. Mas o mago se torna orgulhoso, convencido de sua inteligência e impressionado com seu poder de alcançar tal indiferença. Mesmo quando o tempo passa, e ele assiste a seus amigos casarem e formarem suas próprias famílias, ele permanece satisfeito consigo e sua decisão, considerando-se de sorte por estar livre dos cargos emocionais que ele acredita secar e esvaziar os corações dos outros. Quando seus pais morrem ele não ressente, mas sente-se “abençoado” por suas mortes. Nesse ponto do texto, a letra de Rowling muda um pouco e a tinta parece suavemente mais escura. Talvez ela esteja pressionando mais forte — estará ela tão assustada e frustrada com o mago quanto nós? Quase todas as frases na página esquerda correm se aproximando ao centro do livro, enquanto lemos sobre como o bruxo se faz confortável no lar de seus pais mortos, transferindo seu “grande tesouro” para a masmorra deles. Na página oposta, onde descobrimos que ele acredita que é invejado por sua “esplêndida” e perfeita solidão, vemos o primeiro deslize na escrita de Rowling. É como se ela não pudesse suportar escrever a palavra “esplêndida”, já que tão claramente não é verdadeira. O bruxo está iludido, e fica o mais decepcionado possível quando ouve dois empregados fofocando — um demonstrando pena e o outro gozando dele por não possuir uma esposa. Ele decide, de vez, “assumir uma mulher”, presumivelmente a mais bonita, rica e talentosa mulher, para fazê-lo ter “a inveja de todos”

Como a sorte planejaria, no dia seguinte mesmo o mago conhece uma bela, cheia de talentos, afortunada bruxa. Vendo-a como seu “prêmio”, ele a persegue, convencendo aqueles que o conhecem de que ele é um homem mudado. Mas a jovem – que é tanto “fascinada quanto repelida” por ele — ainda sente sua distância, mesmo aceitando ir a um banquete em seu castelo. Na festa, entre as riquezas de sua mesa e enquanto músicos tocam, o mago roga a moça em casamento. Finalmente, ela o confronta, sugerindo que ela confiaria em suas amáveis palavras, se pelo menos achasse que ele “tinha um coração”.

[Alerta de spoiler!] Sorrindo (e ainda orgulhoso), o bruxo a guia para a masmorra, onde ele revela uma mágica “caixinha de cristal”, na qual mora seu próprio “coração batendo”. Nós avisamos que esse seria um conto obscuro, certo?

A bruxa fica horrorizada à visão do coração, que se tornou retorcido e cabeludo em seu exílio do corpo, e implora para ele “colocá-lo de volta”. Porque ele sabia que aquilo futuramente o valorizaria para ela, o mago “cortou aberto” seu tórax com sua varinha e posicionou o “coração cabeludo” em si. Emocionada que agora o mago poderia sentir amor, ela o abraçou (surpreendente, já que estamos claramente gritando “Sai de perto dele!” por agora), e o horrível coração é “perfurado” pela beleza da pele dela e o cheiro de seus cabelos. “Tornado estranho” por estar desconectado de seu corpo por tanto tempo, o agora “cego” e “perverso” coração assume selvagem ação. Com isso poderíamos terminar aqui, e deixar que vocês apenas imaginassem o destino da jovem bruxa e do bruxo do coração cabeludo, mas Rowling marcha com a história, enquanto os convidados do banquete divagam sobre seu anfitrião. Horas depois, eles examinam o castelo e os encontram na masmorra. No chão jaz a moça, morta, com seu tórax aberto. Agachado ao seu lado, está o “louco mago”, acariciando e lambendo o “coração escarlate brilhante” dela, e planejando trocá-lo pelo seu. Seu coração é forte, entretanto, e se nega a deixar seu corpo. O bruxo, jurando nunca deixar-se ser “comandado” por seu coração, busca uma adaga e o traz para fora do corpo aos cortes, encontrando-se brevemente vitorioso, um coração em “cada mão sangrenta”, antes de cair por sobre a moça e morrer.O último parágrafo, descrevendo a morte do bruxo é o primeiro que parece desalinhado — a escrita sobe e se inclina somente o suficiente para ser notável, tornando o fim ainda mais abrupto e perturbador.

Rowling, como a maioria dos verdadeiramente grandes escritores de contos de fadas, não tem pena dos maus. Agindo com orgulho e egoísmo desde o início da história, se endurecendo e isolando de todo sentimento, o mago se vulnerabilizou à loucura, subseqüentemente tirando uma vida inocente, e destruindo sua própria no processo (soa como algum outro vilão que conhecemos?). Assim como nos outros contos que lemos, o segredo fica no imaginário, igualmente real e imaginado (particularmente depois que você vê os desenhos da primeira página). A agoniante e indelicada visão do mago maluco lambendo o coração sangrento se compara o mais sombrio da obra dos irmãos Grimm. Considerando que essa história (e todo o livro, afinal) é intencionado a ser um livro de fábulas para jovens bruxos e bruxas, é cabível que Rowling faça do conto sobre o mau uso das Artes das Trevas o mais terrível e menos misericordioso de todos. As Artes das Trevas, como nós fãs bem sabemos, não devem ser brincadeiras — nunca.

Babbitty, a Coelha, e o Toco que Cacarejava

Um grande toco de árvore (com vinte anéis de crescimento — nós contamos) está já no topo do quarto e mais longo conto de fadas de Rowling. Cinco raízes-tentáculos se espalham da base, com grama e dentes-de-leão nascendo em volta deles. No centro da base do toco, um buraco escuro, com dois círculos brancos que parecem pequeninos olhos espiando o leitor. Abaixo do texto, uma pequena e ínfima pegada (com quatro dedos), Não tão horripilante como o sangrento, cabeludo coração da última história (e dessa vez nós vemos um brilhante pó élfico na página de rosto), mas nós não gostamos inteiramente da aparência daquele toco.

“Babbitty, a Coelha, e o Toco que Cacarejava” [ou “Babbitty Rabbitty and her Cackling Stump” , em inglês] começa (como bons contos de fadas normalmente fazem) muito tempo atrás, numa terra distante. Um avarento e “bobo rei” decide que quer manter toda a magia existente para si mesmo. Mas ele tem dois problemas: primeiro, precisa acabar com todos os bruxos e bruxas; segundo, ele tem que aprender magia de verdade. Ao mesmo tempo em que ele comanda uma “Brigada de Caçadores de Bruxas” armada com um batalhão de ameaçadores cães negros, ele também anuncia que necessita um “Instrutor de Magia” (não muito esperto, nosso rei). Bruxos e bruxas sensatos esconderam-se ao invés de atender ao seu chamado, mas um “astuto charlatão” sem nenhuma habilidade mágica blefa sua admissão ao cargo com alguns truques simples.

Uma vez instalado como feiticeiro-mestre e instrutor particular do Rei, o charlatão pede ouro para suprimentos mágicos, rubis para criar encantos e taças de prata para as poções. O charlatão estoca tais itens em sua própria casa antes de retornar ao palácio, mas não percebe que a velha “lavadeira” do rei, Babbitty, o vê. Ela o assiste tirar galhos de uma árvore que ele apresenta ao rei como varinhas. Esperto como ele é, o charlatão diz ao réu que a sua varinha não funcionará até que “sua majestade seja digno dela”.

Todos os dias o rei e o charlatão praticavam sua “magia” (Rowling brilha aqui, pintando a imagem do ridículo rei balançando seu galho e “gritando coisas sem sentido ao céu”), mas certa manhã eles ouvem risadas e vêem Babbitty assistindo de sua cabana, rindo tanto que mal conseguia manter-se em pé. O humilhado rei fica furioso e impaciente, e exige que eles dêem uma real demonstração de magia fronte aos seus súditos no dia seguinte mesmo. O charlatão desesperado diz que é impossível, pois precisa deixar o reino numa longa jornada, mas o já desconfiado rei ameaça mandar a Brigada atrás dele. Já num acesso de fúria, o rei também diz que “se qualquer um rir de mim”, o charlatão será decapitado. E então, o nosso bobo, ambicioso, não-mágico rei também se revela tanto orgulhoso quanto misericordiosamente inseguro — mesmo nesses curtos, simples contos, Rowling é capaz de criar complexas e interessantes personagens.

Procurando “escoar” sua raiva e frustração, o astuto charlatão segue direto à casa de Babbitty. Espiando pela janela, ele vê uma “pequena velhinha”, sentada em sua mesa limpando sua varinha, enquanto os lençóis estão “se lavando” numa bacia. Vendo que ela é uma verdadeira bruxa, e igualmente a fonte e a solução de seus problemas, ele pede por sua ajuda, ou ele a entregará à Brigada. É difícil descrever completamente esse poderoso ponto de virada na história (e em qualquer um desses contos, na verdade). Tente lembrar a riqueza e a cor dos romances de Rowling e imagine como ela poderia fechar esse pequenos contos cheios de um imaginário vívido e nuances sutis de caráter.

Não afetada pelos pedidos dele (ela é uma bruxa, afinal), Babbitty sorri e concorda fazer “tudo ao seu alcance” para ajudar (essa é uma brecha, se existe uma). O charlatão diz para ela se esconder dentro de uma moita e realizar os feitiços pelo rei. Babbitty concorda, mas pensa alto sobre o que acontecerá se o rei tentar realizar um encantamento impossível. O homem, mais convencido que nunca de sua própria esperteza e da idiotice dos outros, desconsidera as preocupações dela, assentindo que sua mágica é certamente muito mais poderosa que qualquer coisa que “a imaginação daquele tolo” poderia sonhar.

Na manhã seguinte, os membros da corte se reúnem para presenciar a mágica do rei. De um palco, o rei e o charlatão realizam seu primeiro ato mágico — fazer o chapéu de uma mulher desaparecer. A multidão fica maravilhada e espantada, nunca imaginando que era Babbitty, escondida num arbusto, que fizera o feitiço. Para seu próximo número, o rei aponta seu “galho” (cada referência a isso nos dobra em risadas) para seu cavalo, levando-o para o alto no ar, Olhando em volta por uma idéia ainda melhor para o terceiro encantamento, o rei é interrompido pelo Capitão da Brigada, que segura o corpo de um dos cães de caça do rei (morto por um cogumelo venenoso). Ele implora ao rei para trazer o cão “de volta à vida”, mas quando o rei aponta a varinha para o cachorro, nada acontece. Babbitty sorri em seu esconderijo, nem mesmo tentando executar um feitiço, pois ela sabe que “magia alguma pode ressuscitar os mortos” (pelo menos não nessa história). A multidão começa a rir, suspeitando que os dois primeiros feitiços foram apenas truques. O rei está furioso, e quando exige saber porque seu encantamento falhou, o esperto e desleal charlatão aponta para o esconderijo de Babbitty e grita que uma “bruxa má” está bloqueando os feitiços. Babbitty corre do arbusto, e quanto os Caçadores de Bruxas mandam os cães atrás dela, ela desaparece, deixando-os “latindo e tateando” na base de uma velha árvore. Agora desesperado, o charlatão berra que a bruxa se transformou “numa macieira” (que até mesmo nesse ponto tenso e dramático, puxa uma risada). Receoso que Babbitty pudesse tornar a transformar-se em mulher e expô-lo, ele manda cortarem a árvore — porque é assim que você “trata bruxas do mal”. É uma cena poderosa, não somente por seu drama “arranquem a cabeça dela!”, mas porque a habilidade do charlatão de comandar a platéia evoca os julgamentos reais de bruxas. Quando o drama cresce, a letra de Rowling parece levemente menos polida — os espaços entre as letras e as palavras aumenta, criando a ilusão de que ela está criando a história enquanto segue, colocando as palavras na página o mais rápido possível.

[Alerta de spoiler!] A árvore é derrubada, mas quando o público dá vivas e se torna para o palácio, um “alto cacarejo” é ouvido, dessa vez vindo de dentro do toco. Babbitty, bruxa inteligente que é, grita que bruxos e bruxas não podem ser mortos sendo “cortados ao meio”, e para prová-lo, ela sugere que cortem “em dois” o instrutor do rei. À isso, o charlatão implora por piedade e confessa. Ele é arrastado para a masmorra, mas Babbitty ainda não terminou com a tolice do rei. Sua voz, ainda saindo do toco, proclama que suas ações invocaram uma maldição sobre o reino, então todas as vezes que o rei machucasse um bruxo ou bruxa, ele sofreria também de uma dor tão aguda que ele desejaria “morrer dela”. O agora desesperado rei cai de joelhos e promete proteger todos os bruxos e bruxas em sas terras, permitindo que eles praticassem magia sem danos. Feliz, mas não completamente satisfeito, o toco cacareja mais uma vez e pede que uma estátua de Babbitty seja construída, para lembrar ao rei de sua “própria idiotice”. O “envergonhado rei” promete arranjar um escultor que crie uma estátua de ouro, e volta ao castelo com sua corte. Finalmente, um “velho coelho gorducho” com uma varinha nos dentes, salta para fora do buraco do toco (aha! A fonte daqueles pequenos olhinhos brancos!) e deixa o reino. A estátua de ouro permaneceu no toco para todo o sempre, e bruxos e bruxas nunca mais foram caçados naquele reino.

“Babbitty, a Coelha, e o Tronco que Cacarejava” dá ênfase à ingenuidade piscante da velha bruxa — que deveria lembrar aos fãs de um certo mago sábio e cheio de recursos — e você pode imaginar como a velha Babbitty poderia se tornar uma heroína folclórica para jovens bruxinhos e bruxinhas. Porém, mais que uma história sobre o triunfo de uma bruxa inteligente, o conto nos alerta sobre as fraquezas humanas da ambição, as arrogância, do egoísmo e da duplicidade, e mostra como essas errantes (mas não malvadas) personagens vêm a aprender com o erro em seus caminhos. O fato de que o conto segue tão perto daquele com o mago maluco, enfatiza a importância que Rowling sempre deu à sensatez: Babbitty revela ao rei sua própria arrogância e ambição, assim como o Caldeirão Saltitante expõe o egoísmo do bruxo e o Poço descobre a força escondida do cavaleiro. Dos seus primeiros quatro contos, apenas o mago do coração cabeludo sofre um destino realmente horrível, porque seu imperdoável uso das Artes das Trevas e sua falta de vontade em realmente se conhecer o excluem da redenção.

O Conto dos Três Irmãos

Se, como nós, você correu pra terminar “O Conto dos Três Irmãos” [ou “The Tale of the Three Brothers”, em inglês] na primeira vez que leu pra chegar logo aos “finalmentes”, então você perdeu uma grande história. Pra sua sorte, você pode abrir a sua cópia de Harry Potter e as Relíquias da Morte no Capítulo Vinte e Um e lê-la quando quiser [ou clicar aqui e ler online]. Se você ainda não leu o último livro da série de Rowling, você não deve querer ler esse resumo… ainda. Dê-se uma chance de ler o conto no contexto primeiro. Você não vai se decepcionar.

Um trio de caveiras dentuças encara o leitor no topo do último dos cinco contos. A caveira do meio tem um símbolo gravado na testa – uma linha vertical em um círculo, dentro de um triângulo. Pelo texto há um tecido sobre o qual está uma varinha (soltando faíscas) e o que parece ser uma pequena pedra.

Esse conto assustador sobre três irmãos, três escolhas e três destinos distintos implora para ser lido em voz alta – na verdade, a primeira vez que conhecemos os três irmãos é quando Hermione lê o conto para Harry e Rony (e Xenofílio). Três irmãos viajando por uma rua deserta ao “crepúsculo” (meia-noite, de acordo com a versão da Sra. Weasley) chegam a um rio traiçoeiro que não podem atravessar. Muito hábeis em magia, eles criam uma ponte com um aceno de suas varinhas. No meio da travessia eles são parados por uma “figura encapuzada”. A Morte está brava e diz aos irmãos (em um momento engraçado de Relíquias, Harry interrompe a história aqui dizendo “Desculpa, mas a Morte falou com eles?”) que eles a desproveram de “novas vítimas”, já que as pessoas normalmente se afogam quando tentam atravessar o rio. Mas a Morte é astuta e oferece uma recompensa a cada um deles por terem sido espertos o suficiente para “escapar”. Nossos contos de fadas preferidos têm o mesmo tipo de enredo de “escolha o seu destino” – você pode aprender muito sobre um personagem por uma simples escolha, e as melhores histórias, como essa, levam você além de onde você achava que eles estavam indo, para um fim que você jamais esperava.

O irmão mais velho, um “homem combativo”, pede a varinha mais poderosa já criada – uma varinha que vença todos os duelos para o seu dono, uma que se encaixe a um bruxo que “conquistou a Morte”. Então a Morte cria a (fatídica) varinha de uma “árvore Anciã” e a dá ao irmão encrenqueiro e exibido. O segundo irmão, um “homem arrogante” determinado a humilhar ainda mais a Morte, pede o poder de trazer outros de volta da Morte. Pegando uma pedra do chão, a Morte diz ao irmão que ela tem o poder de trazer de volta os mortos. O irmão mais novo, o mais modesto e esperto dos três, não “acredita na Morte”, então ele pede algo que o permita sair sem ser “seguido pela Morte”. Sabendo que ela devia ter sido superada, a Morte lhe dá a “sua própria” capa da invisibilidade com muita má vontade. A escolha de cada irmão revela muito sobre suas motivações: o irmão mais velho quer a varinha das varinhas para fazê-lo mais poderoso do que os outros; o segundo irmão quer ter poder além da Morte; e o irmão mais novo quer ter a Morte atrás dele com segurança.

[Alerta de spoiler!] Então os irmãos pegam seus presentes e vão por caminhos diferentes, no rumo de destinos muito diferentes. O primeiro vai a uma vila e segue um bruxo com quem ele havia lutado para desafiá-lo para um duelo que “ele não podia falhar em vencer”. Depois de matar seu inimigo, ele vai para uma pousada onde se gaba sobre a varinha das varinhas, sobre como ele a havia conseguido da “própria Morte” e como ela o fazia todo-poderoso. Naquela noite, um bruxo vai sorrateiramente até o quarto do irmão mais velho e rouba a varinha, cortando a garganta dele como “prevenção”. O refrão assustador no qual Rowling descreve a Morte pegando o irmão “para ela”, ajuda tanto a fixar o conto como preventivo quando ensina uma lição sobre a inevitabilidade da morte. Uma das mensagens mais importantes desse conto, e desse irmão em particular, é a noção de usar o poder para o bem.

O segundo irmão chega à sua casa vazia, onde gira a pedra três vezes na sua mão, usando-a para invocar os mortos. Ele fica extasiado ao presenciar o retorno da garota com quem queria se casar, mas ela está silenciosa e fria, e sofrendo porque ela não pertence mais ao “mundo mortal”. Desesperado e cheio de desejos esperançosos, o segundo irmão se mata para poder se unir a ela, permitindo à Morte ganhar sua segunda vítima.

O irmão mais novo usa a “Capa da Invisibilidade” (até mesmo vocês que ainda não leram o sétimo livro devem ter percebido que isso talvez não seja apenas um conto de fadas no fim das contas) para se esconder da Morte, até que em uma idade muito avançada ele a tira e a dá a seu filho. Então ele cumprimenta a Morte “feliz” como “uma velha amiga”, partindo “dessa vida”. Um fim muito satisfatório para esse conto – ainda é um grande impacto, mesmo depois de uma segunda leitura. Simples, poderoso e certeiro, o “Conto dos Três Irmãos” introduz teorias sobre o uso e o abuso de poder (também muito forte na série) e compartilha mensagens importantes sobre vida e morte. Há várias formas nas quais esse conto informa e destaca Harry Potter e as Relíquias da Morte (os curiosos devem reler o capítulo 35, “King’s Cross”, e discutir), mas o nosso favorito é destacado pela mensagem que Dumbledore deixa a Harry sobre aceitar a Morte e abraçar a vida: “Não tenha pena dos mortos, Harry. Tenha pena dos vivos, e acima de tudo, daqueles que vivem sem amor.” O irmão mais novo não tentou enganar a Morte ou ferir outros com o seu poder; ao invés disso, ele usou o seu presente para viver simplesmente e sem medo da Morte, para que no fim de sua vida longa e feliz, ele pudesse ir disposto desse mundo.

É uma verdadeira prova do talento de Rowling que seu conto de fadas carregue uma mensagem tão forte, mas nunca pareça ser um sermão ou explicitamente didático (isso também vale para seus livros, e é, em parte, porque eles são tão especiais). Os contos de Beedle, o Bardo dão várias lições iguais às da série de Harry Potter, e as histórias repercutem com o aviso de Dumbledore de escolher “o que é certo e o que é fácil”. Estando ela prevenindo contra arrogância e ganância, revelando as responsabilidades que vêm com grandes poderes, ou exaltando a importância de amor e fé nas pessoas, a imaginação sem limites de Rowling e a habilidade incrível de contar histórias mantém os seus fãs (novos e velhos) querendo sempre mais, ainda mais ansiosos pela próxima lição.